Coordenador da ASA Pernambuco conhece experiências agroecológicas no Araripe

Os desafios de convivência com o semiárido são muitos, bem como os exemplos de convivência exitosa acumulados nos últimos anos, boa parte dessas experiências fruto do trabalho de organizações como Caatinga, Chapada e Centro Sabiá, dentre muitas outras. Pensando na perspectiva de conhecer algumas das práticas agroecológicas bem sucedidas e dialogar com as famílias beneficiadas com ações como cisternas, agroflorestas e banco de sementes crioulas, o coordenador da ASA/PE (Articulação do Semiárido Pernambucano), Alexandre Pires, visitou uma série de comunidades rurais entre os municípios de Exu e Ouricuri, no sertão do Araripe, e dialogou com a sociedade local sobre a necessidade de se discutir urgentemente agroecologia, tecnologias para armazenamento de água e políticas públicas para a agricultura familiar nos próximos anos.

“As organizações sociais vêm construindo várias experiências exitosas que fortalecem a agricultura familiar, geram trabalho, mitigam os efeitos das mudanças climáticas e dinamizar as economias dos municípios. Processos potentes de produção de conhecimento e ciência. Mas os investimentos, por parte dos governos, são muito tímidos”, afirma. Em comum as comunidades destacaram a necessidade de mais cisternas, além de mais acesso a assistência técnica para agroecologia, já que a assistência oferecida pelo governo estadual através do IPA (Instituto Agronômico de Pernambuco), embora seja importante, é insuficiente.

O que resta a essa população são as ações de organizações que, por conta dos poucos recursos, não conseguem atender a toda a população: “2022 é ano de eleição, e por isso mesmo devemos cobrar dos vereadores e candidatos a deputados que percorrem esses territórios ações concretas pela agricultura familiar e assistência técnica rural, ir além da concessão de horas máquinas ou distribuição de sementes de procedência duvidosa”, destaca Alexandre.

Outra observação importante do coordenador diz respeito ao número alarmante de déficit de cisternas: são mais de 350 mil para consumo humano (Pernambuco precisa de 35 mil) e 800 mil destinadas à produção de alimentos, além de uma clara falta de ação, por parte do Governo Federal, com relação ao programa Cisternas, que segundo Alexandre vem sendo achatado ano a ano após o impeachment de Dilma e hoje precisa de uma verba de aproximadamente R$1,2 bilhão para cisternas de consumo e R$12,35 bi para cisternas para produção de alimentos.

“Depois de mais de 20 anos de ação da Articulação do Semiárido e mais de um milhão de cisternas construídas, 2021 é o primeiro ano onde simplesmente não construímos nada com verba federal. Negociamos com os ministérios, mas nada foi liberado”. Ele ainda reforça que o governo federal também retém uma verba, já negociada, de R$ 50 milhões para o programa. Os números comprovam o desmonte já no governo Temer e ampliação no governo Bolsonaro: enquanto foi lançado, em 2003, com 6.603 cisternas, aumentando ano a ano de 36 mil em 2004, 71 mil em 2006, mais de 91 mil em 2009 até o recorde de 149 mil em 2014, a partir de então o número decresceu – 55 mil em 2017, 33 mil em 2018, 32 mil em 2019, apenas 8,3 mil em 2020 e 3 mil em 2021. E fica o principal alerta: “não houve nenhum incremento de verba, tudo que se realizou foi produzido com restos de convênios firmados até o governo Dilma”, destaca Alexandre. 

Além de ser tema de estudo de diversos estudos no Brasil e no mundo, por oportunizar à população rural manter-se em suas terras e viver com dignidade, sem precisar percorrer grandes distâncias em busca de água, o programa Cisternas também foi reconhecido com o “Future Policy Award” (Política para o Futuro), da World Future Council, em cooperação com a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação em 2017 e com o Prêmio Sementes, da ONU, em 2009. Mesmo assim o programa segue se investimentos: integrante das políticas de segurança alimentar (subfunção 306: Alimentação e Nutrição), em 2021 houve apenas R$ 728.739 em verba para esta área, 97% inferior aos R$ 30 milhões de 2020, até então o menor investimento da história, e 99,9% menor que em 2011, quando houve o recorde de R$ 642 milhões destinados.

Dentre as experiências verificadas por Alexandre, além do destaque para o sucesso do programa de cisternas, ainda se verifica experiências exitosas com agroflorestas, biodigestores, bancos de sementes crioulas e sistemas de Reúso de Águas Cinzas (RACs) ou Bioágua. Depois de percorrer as comunidades do Alto da Aroeira, Sitio Camaleão, Sítio Santa Maria, Lagoa do Pau Ferro e São João, Lagoa Comprida, Boa Vista e Povoado da Extrema, em Ouricuri, e a Serra da Estância em Exu, Alexandre pretende conhecer outras experiências agroecológicas no agreste de Pernambuco. “Às vezes os gestores públicos acham que é só garantir o crédito, as sementes, o orçamento para a tecnologia. Eles esquecem que por trás do sucesso do trabalho das organizações tem um jeito de fazer, tem uma metodologia que promove a construção de conhecimento. Tenho entendimento que é necessário universalizar as ações, mas é fundamental discutir como fazer, e já temos métodos eficazes, como os intercâmbios entre agricultores, com sucesso mais que comprovados”, frisa o coordenador.

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